CHAMADA PARA DOSSIÊ (V. 7 N. 13) AUDIOVISUALIDADES ASIÁTICAS: ESTÉTICAS DO OLHAR EM REGIMES TECNOCULTURAIS
Organizadoras: Aline Corso (Ewha Woman’s University) e Camila de Ávila (UNISINOS).
Data limite: 18 de agosto de 2026.
Este dossiê propõe uma investigação crítica e transdisciplinar sobre as audiovisualidades emergentes nas culturas asiáticas contemporâneas, compreendidas como formas dinâmicas de produção e circulação do olhar que articulam imagem, tecnologia e subjetividade. Em um cenário cada vez mais mediado por dispositivos técnicos sofisticados e regimes algorítmicos de visualidade, buscamos examinar as transformações nos modos de ver — e de ser visto — a partir das especificidades estéticas, sociotécnicas e culturais do continente asiático.
Mais do que uma análise de imagens, a proposta se orienta por uma reflexão sobre os modos de produção, mediação e recepção do sensível, interrogando as tecnologias visuais que atravessam as práticas culturais asiáticas. Entre as questões norteadoras deste dossiê, destacam-se:
- Como os regimes do olhar são reconfigurados por plataformas digitais, vigilância algorítmica e estéticas tecnológicas no contexto asiático?
- O que as imagens produzidas entre espiritualidade, tradição e tecnocultura exigem de nós ao interpelar outras formas de sensibilidade?
- Que visualidades emergem das culturas pop asiáticas — como K-pop, BLs, doramas, animes, webtoons e cinematografias locais — e quais modos de existência elas produzem?
- Como corpos e identidades são performados, filtrados e redimensionados nas mídias visuais asiáticas, e quais desejos ou dissidências atravessam essas representações?
- O que se perde — e o que resiste — nos arquivos digitais, nos ruídos e nos silêncios que marcam as narrativas visuais do continente?
- Como saberes espirituais, cosmologias e filosofias influenciam a criação de imagens e se articulam às tecnologias contemporâneas?
- De que maneira a circulação global das audiovisualidades asiáticas reconfigura imaginários sobre tempo, corpo, modernidade e futuro?
- Quais contra-imagens emergem da Ásia diante das hegemonias visuais ocidentais?
Adotamos a expressão “audiovisualidades asiáticas” por entendermos que as
dinâmicas tecnoculturais que emergem em regiões como o Leste Asiático não se limitam a fronteiras geográficas fixas. Tais práticas reverberam e se entrelaçam com produções de outras áreas do continente — como o Sudeste Asiático, o Sul da Ásia e a Ásia Ocidental — por meio de circuitos culturais compartilhados, plataformas digitais e estéticas transversais.
Exemplos disso incluem o consumo de K-pop na Tailândia, a adaptação de webtoons coreanos na Indonésia, a popularidade dos BLs tailandeses em países como Filipinas e Japão, e a crescente presença do cinema indiano em plataformas digitais do Sudeste Asiático. Esses fenômenos ilustram movimentos de hibridização e recombinação cultural que desafiam fronteiras nacionais, linguísticas e identitárias rígidas. A intensificação dessas conexões é impulsionada por tecnologias digitais — como redes sociais, algoritmos de curadoria, inteligência artificial e serviços de streaming — que criam zonas de contato entre estéticas locais e dinâmicas globais. O uso da designação “asiáticas” visa, portanto, reconhecer a pluralidade de regimes do olhar, práticas midiáticas e
imaginários visuais que atravessam o continente, valorizando suas singularidades, mas também suas inter-relações e potências de reinvenção estética e cultural.
Eixos Temáticos:
Convidamos à submissão de artigos que explorem, ainda que não se limitem a, os
seguintes eixos:
- Regimes do olhar: visibilidade, opacidade e poder: reflexões sobre o que se torna visível ou invisível nas produções audiovisuais asiáticas. Analisa como dispositivos técnicos, estéticos e políticos regulam o olhar, incluindo censura, vigilância, representação seletiva ou apagamento de sujeitos e narrativas;
- Tecnocultura e subjetividade digital: investiga como tecnologias visuais — como câmeras, filtros, aplicativos e redes sociais — moldam modos de subjetivação. Envolve temas como performatividade digital, construção de identidades, autocuradoria e afetos mediados por tecnologia;
- Estéticas algorítmicas e mídias sociais asiáticas: explora a influência de algoritmos, plataformas e interfaces (como TikTok/Douyin, Bilibili, WeChat) na estética das imagens e vídeos. Trata também das formas de viralização, consumo e circulação de conteúdo nas mídias digitais da Ásia;
- Audiovisualidades híbridas e tradução cultural: foca em adaptações, remakes, apropriações e reinvenções de produtos audiovisuais asiáticos em contextos globais. Examina também os fluxos entre culturas locais e internacionais, e os modos como obras asiáticas são reinterpretadas em diásporas ou mercados ocidentalizados;
- Imagem, afecção e interpelação: aborda o poder das imagens de afetar, provocando respostas emocionais, cognitivas ou éticas. Investiga a imagem como força interpeladora — que nos toca, nos convoca ou nos desestabiliza;
- Artemídia, experimentação e tecnopoéticas visuais: analisa práticas visuais experimentais que utilizam tecnologias emergentes como realidade aumentada, inteligência artificial, instalações imersivas e arte generativa. Envolve pesquisas em videoarte, cinema expandido e novas formas de criação estética na Ásia;
- Estéticas do tempo: excesso, silêncio e repetição: explora como as
audiovisualidades asiáticas constroem temporalidades alternativas, narrativas fragmentadas, ritmo contemplativo ou repetição intensiva. Propõe pensar o tempo como uma experiência estética sensível e historicamente situada; - Tecnologias da memória: arquivo, ruído e apagamento: investiga como o
audiovisual contribui para a construção (ou destruição) da memória coletiva e individual. Aborda arquivos digitais, apagamentos históricos, ruídos na transmissão de memória e a disputa pelo direito de lembrar; - Corpo, desejo e gênero nas estéticas asiáticas: discute como os corpos são representados nas mídias visuais asiáticas, com foco em sexualidade, identidade de gênero, desejo, normatividade e dissidência. Inclui análises queer, feministas e decoloniais do corpo;
- Técnica, espiritualidade e visualidades transculturais: explora relações entre espiritualidade asiática (budismo, taoismo, hinduísmo, animismos, entre outras) e tecnologias visuais contemporâneas. Questiona como o audiovisual pode expressar cosmologias não ocidentais e experiências do sagrado;
- Geopolítica das imagens e disputas narrativas: analisa como imagens e produtos audiovisuais asiáticos desafiam narrativas globais dominadas pelo Ocidente. Inclui representações da Ásia em conflitos culturais, nacionalismos midiáticos, disputas simbólicas e construção de imaginários;
- Ética da imagem: vigilância, controle e resistência: reflete sobre os usos da imagem em contextos de controle social, vigilância estatal, reconhecimento facial e monitoramento algorítmico. Também investiga estratégias visuais de resistência, anonimato e crítica ao poder visual;
- Audiovisualidades na diáspora asiática: foca nas produções visuais de comunidades asiáticas fora do continente (como na América Latina, Europa e EUA), explorando questões de identidade, pertencimento, tradução cultural e hibridismo estético.
Este dossiê busca aprofundar as reflexões sobre as articulações entre tecnologia,
imagem e cultura nas sociedades asiáticas, oferecendo aportes teóricos e metodológicos inovadores para os campos dos estudos visuais, midiáticos e culturais. Nosso intuito é descentralizar os referenciais analíticos hegemônicos, posicionando as audiovisualidades asiáticas como territórios epistêmicos potentes, capazes de tensionar e enriquecer as categorias tradicionais de análise. Ao fazê-lo, espera-se consolidar a Prajna: Revista de Culturas Orientais como um espaço de referência crítica para debates sobre as culturas asiáticas e suas projeções globais no campo do audiovisual contemporâneo.