CHAMADA PARA DOSSIÊ - ARTES MARCIAIS EM CRIAÇÕES DE SI: APRENDIZAGENS, ONTOGÊNESES E MATERIALIDADES EM TRÂNSITO

2026-05-12

Organizadores: Felipe Araujo Fernandes (PPGF/UFRJ), Luís Felipe Cardoso Mont'mór (UFPB) e Gabriel Guarino de Almeida  (Métis/USP).

Data limite: 19 de outubro de 2026.

Poderíamos dizer que o termo arte marcial carrega consigo um “orientalismo” de base, produto do próprio encontro colonial do qual surge – hoje, nomeamos como artes marciais uma série heterogênea de práticas corporais de luta, combate, defesa e disputa; confiando numa certa capacidade dada de tradução cultural do termo. Duas provocações são possíveis: a primeira, que emerge da crescente rede anglófona de Martial Arts Studies Network, é tomar o termo arte marcial como categoria aberta para pesquisa, usando-a por seu valor agregador de um “quase campo” (nos termos de Paul Bowman). A segunda, postulada no Brasil pelo historiador Guilherme Luz, seria investigar “as artes marciais em si”, suspendendo assim o potencial agregador do termo para analisar as especificidades de cada prática, para além de seus discursos simbólicos e auto representativos.

Inspirado por ambas as provocações, este dossiê convida pesquisas interessadas nas aprendizagens, ontogêneses e materialidades em trânsito que as artes marciais permitem investigar, com atenção às criações e reinvenções de tais práticas em contextos específicos. Nosso especial interesse são os aspectos técnicos que se transformam nas peregrinações de pessoas mestres e aprendizes, nos problemas de adaptação e herança de linhagens e tradições, nas genealogias atravessadas por múltiplas diásporas e colonizações. Tomamos o jogo oriente/ocidente a partir do convite da socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui para recentrar nossas perspectivas: tomando nossa América como centro de um mapa mundi, a Ásia se tornaria o Ocidente, enquanto a África nosso oriente. O kungfu chinês, portanto, seria uma prática do extremo ocidente; a capoeira angola, uma arte marcial oriental. Tal inversão cartográfica é um convite metodológico para questionar: de onde falamos quando falamos de “artes marciais”? Como se dá sua prática localizada? Como descrever e analisar suas atualizações contínuas no espaço-tempo?

Conectando-se à vocação da Revista Prajñā de exploração ampla da cultura oriental, este dossiê acolherá trabalhos que investiguem as artes marciais sob um viés crítico e aberto à curiosidade, privilegiando investigações interessadas no aspecto corporal das práticas, seus conjuntos sociotécnicos, sua materialidade engajada. Arqueologias de conceitos, individuações da tradição, transformações técnicas: tal vocabulário nos aproxima de uma antropologia da técnica, assim como de uma aprendizagem situada ou de uma filosofia materialista – mas sem com isso restringir outras perspectivas advindas das Humanidades, desde que interessadas a contribuir para um diálogo que repense fronteiras e traduções, explorando como essas práticas corporais são reinventadas, ressignificadas e contestadas em diferentes contextos locais.